O assunto já foi debatido nas postagens anteriores e talvez você queira lê-las antes dessa postagem.
2. Preconceitos
Os preconceitos – diferentemente dos conceitos – são baseados em emoções pessoais e não têm muito a ver com “conclusões científicas”. Apesar de muitas pessoas compartilharem os mesmos preconceitos com relação ao aprendizado de um idioma, eles não se baseiam em experiências ou fatos reais, são oriundos mais do emocional e da percepção do indivíduo.
Tentemos então entender alguns dos mais comuns:
Caso 4
Baseado sabe-se lá em que teoria maluca, o aluno acha que só conseguirá falar uma palavra se souber como ela é escrita.
Esse caso é bastante frequente, principalmente em classes de adultos. O adulto quer a “segurança” da palavra escrita porque acha que se souber como é escrita aprenderá e não se exporá ao ridículo.
Se isso fosse verdadeiro, primeiro iríamos à escola aprender a ler e escrever, e só depois aprenderíamos a falar. O processo natural do aprendizado de um idioma é: ouvir, imitar, entender, falar, ler, escrever. Exatamente nessa ordem. Qualquer “atalho” que tomemos nos tirará a oportunidade de amadurecer primeiro um estágio para depois passar ao seguinte, então teremos um aprendizado “truncado” e incompleto.
O principal motivo da existência de um idioma é a necessidade de comunicação e a comunicação é primordialmente oral e auditiva. Veja você, por exemplo: você se comunica mais falando e ouvindo ou lendo e escrevendo?
Caso 5
O aluno acredita que só conseguirá entender o significado das palavras ou como usá-las se souber sua tradução literal para seu idioma.
Quando nos comunicamos em um idioma não precisamos saber a tradução para nosso idioma nativo, mesmo porque as traduções são “mecânicas” e não levam em conta dados importantes que também fazem parte da comunicação: entonação, contexto e variações.
A entonação faz parte da comunicação. Se perguntamos a alguém:
Você quer um chá ou um café? – a pessoa entende que tem duas opções e escolherá uma das duas.
Se dizemos:
Você quer um chá ou um café... – a pessoa entende que pode escolher qualquer outra coisa.]
O contexto também é muito importante. Se digo que estou com uma puta dor de cabeça, a palavra “puta” não tem conotação pejorativa, entende-se “grande, importante, relevante, etc.”. Em outro contexto pode ser entendida como uma ofensa.
As variações são importantes, temos que entender se estamos diante de um diálogo entre jovens (pode ser uma gíria) ou uma conversa formal. A palavra “cool” que é usada em profusão pelos adolescentes e jovens americanos não pode ser definida como frio, mas sim como “legal” – que é usada pelos jovens brasileiros sem a menor intenção de referir-se às leis ou ao Direito de modo geral.
Depois há um outro problema: nosso cérebro não funciona com dois idiomas de uma só vez, não há como manter uma conversa traduzindo de um idioma para outra. Daria – pelo menos – o dobro do trabalho do que se aprendêssemos simplesmente como usar o idioma. E dessa forma estamos muito menos expostos ao mau uso, que pode ter consequências drásticas ou hilárias.
Caso 6
O aluno crê que para entender uma frase precisa saber a classe gramatical das palavras, as regras gramaticais envolvidas no uso de cada uma delas, decorar todas as regras antes de começar a usá-las.
Se isso fosse verdade, infelizmente a maioria das pessoas que conhecemos teria que calar a boca e só voltar a falar daqui uns 10 anos, quando conseguisse recitar todas as regras gramaticais do português.
A gramática só existe para entender como e porque as frases e palavras são usadas de determinada maneira e podem ser de grande ajuda para que não se cometam erros primários que – esses sim – podem nos expor ao ridículo.
Conclusões
Perceber as inseguranças e preocupações dos alunos, bem como pequenos traumas que podem ter sido ocasionados por sua experiência anterior ou de outros é uma tarefa nossa, que se for bem elaborada reduzirá o nível de desistências apenas para aqueles casos nos quais não há o que fazer. Despertar no aluno a vontade de aprender, motivá-lo para que persista mesmo quando as dificuldades surgirem, são também formas de demonstrar o quanto nos importamos com nossos alunos.
Zailda Coirano
Nessa postagem, bem como nas postagens anteriores, você aprendeu sobre os motivos que levam os alunos a desistirem no meio do caminho ou que bloqueiam seu aprendizado, e também maneiras de contornar esses problemas, transformando frustração em motivação.